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Sol destronado

Esqueçamos por ora o infográfico. Deixemos, se possível, as imagens adormecerem. Geografia rompida sob signos da catástrofe. Cidades desaparecidas. A própria ideia de paisagem desfeita em segundos. Holocausto nipônico. A dor sem medida, cadáveres que não se contarão jamais. Extremo Oriente que confiou seu destino ao Ocidente, que por sua vez se espelhou na civilização daquele arquipélago como seu modelo extremo. Mesmo se "perdidos na tradução", ou até por isso, desejamos ver o Império do Sol Nascente como nosso mais perfeito Extremo Ocidente. Como num velho gibi de Tóquio, comprado um dia no mercado de Pinheiros, aparecia a roca da história entre fios e fumaça, numa ordem de páginas, figuras e ideogramas de trás para frente, roca assim suspensa no tempo dos haicais levitantes e dos destinos lúcidos. Tempo já então inexistente. Destinos alucinados.

Ao contrário do que se veicula, não há ironia nessa história, pois quando fatos ocorrem tão graves em sua presença incontornável, eles são pura tragédia irradiada em dimensão solar. São fatos totalitários em seu veto absoluto a qualquer recurso de salvamento. Nenhum grande desastre ecológico ou humanitário é irônico. Irônica pode ser, sim, nossa persistente denegação do óbvio, a razão instrumental, "inovadora e progressista", para sempre perdida entre os órfãos de Hiroshima-Nagasaki e entre os heróis anônimos dos reatores de Fukushima. Perdidos os elos e os halos entre tais desastres, Andrés Braun, no El País do dia 17, recorda-nos a força simbólica da expressão gambarimasu na cultura japonesa, difícil de traduzir, talvez algo como a perseverança condensada no espírito coletivo e no alento comunitário para seguir adiante, no melhor passo possível.

Mas há algo que percorre invisível como a "energia mais limpa do planeta" corações e mentes nesta hora da reinvenção de qualquer sobrevida, que contamina o fundo de cada alma perseverante: o medo.

Medo liquefeito, medo incandescente, medo trêmulo como a terra, medo aéreo como a nuvem, medo frio como o vento na noite nevada e vazia de Tóquio, a maior megalópole que o sonho humano construiu. Elias Canetti sintetizou esse desalento profético em anotações memoráveis que fez, ainda sob impacto do cogumelo sinistro de Hiroshima, publicadas depois em O território do Homem, de que cito um fragmento em tradução de Laymert Garcia do Santos: "A matéria partiu-se; o sonho de imortalidade, que estávamos prestes a realizar, voou em pedaços. As estrelas, aproximadas de pertinho, agora estão perdidas. O mais próximo e o mais distante fundiram-se, mas em meio a que clarões! Só ainda é digno de ser vivido o que é calmo, o que é lento. Mas não lhes resta mais tempo. A embriaguez do voo foi breve. Se houvesse almas, a nova catástrofe as teria atingido, a elas também. Não se deseja, portanto, que exista algo: o que haveria, afinal, de inacessível? A destruição, certa de sua origem divina, atinge as coisas até a medula, e o criador tritura, com o barro, a própria mão que o modelava. Duração! Duração! Palavra indigna! As árvores eram a forma mais sábia da vida e eis que tombam conosco, os ladrões de átomos".

Canetti enfeixa essa visão apocalíptica com uma imagem que permanece tragicamente contemporânea diante do tsunami e do derretimento, até aqui parcial, mas já prenhe de catástrofe, em germe e em memória, das plantas nucleares de Fukushima: "O Sol destronado - é o último mito vivo sendo destruído. A luz foi destronada e a bomba atômica tornou-se a medida de todas as coisas". Mais que isso, poderíamos agregar: o Japão condensa, em sua história, entre agosto de 1945 e março de 2011, a narrativa desse domínio do desmedido, da queda solar e do caráter destrutivo como vareta mais exposta da magia do progresso.

Dos impressionantes relatos que o escritor Charles Pellegrino recolheu de sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, em sua provocadora obra O Último Trem de Hiroshima (2010), sobressaem a experiência e sensibilidade do antigo engenheiro naval nas fábricas bélicas daquelas cidades Tsutomu Yamaguchi, falecido aos 93 anos no ano passado, carpinteiro, professor e pacifista depois do caos, uma das raras vítimas duplas a sobreviver aos dois ataques atômicos dos EUA. Em seus escritos e pinturas, externou a ideia simples de que, independente da insânia de governos e perpetradores, o poder nuclear não poderia jamais seguir se reproduzindo no mundo.

Nenhuma razão é capaz de justificar o risco do horror total como forma de "dissuasão" no plano militar ou de "energia alternativa" no plano da economia civil. Nenhum diagrama é capaz de encenar a ilusão do controle. Pois nossa vã ciência caminha ainda às cegas por tentativa e erro, que no caso de agora pode variar entre 20 e 80 quilômetros... E um erro aqui não é só letal. É o fim da ordenação suprema desse totalitarismo solar.

A sociedade civil, juventude à frente, não deve temer o medo. Dar razão ao medo, eis o desafio. Perseverar ouvindo o que pode nos dizer o medo, pela voz das vítimas. Ou pelo rastro do aroma matinal da breve cerejeira em flor. Para que venha a medrar outro mundo. Mar outro. Madrugada de ações menos robóticas e de sonhos de cidades verdadeiramente livres. De toda essa parafernália obscuramente iluminista. Livres de toda essa alta tecnologia da morte.

FRANCISCO FOOT HARDMAN É ENSAÍSTA, PESQUISADOR E PROFESSOR DE ESTUDOS LITERÁRIOS NA UNICAMP

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sera que o sol vai explodir
 
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lemao^ Escreveu:sera que o sol vai explodir

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