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O homem que plantava árvores

Esta animação delicada e única, vencedora do OSCAR® de filme curto de animação, é um tributo ao trabalho árduo e à paciência.

Conta a história de um homem bom e simples, um pastor que, em total sintonia com a natureza, faz crescer uma floresta onde antes era uma região árida e inóspita. As sementes por ele plantadas representam a esperança de que podemos deixar pra trás um mundo mais belo e promissor do que aquele que herdamos.

Observações: Licenciado para 50 países e ganhador do OSCAR e de mais 40 prêmios:


OSCAR® 1988 – Melhor filme curto de animação
ANNECY 1987 (Festival Internacional do Cinema de Animação) – Grande Prêmio e Prémio do Público, , Annecy, França, 1987.
Festival Internacional de Animação de Hiroshima 1987 – Grande Prêmio
Festival Internacional de Ottawa 1988 – Grande Prêmio





 
"Em 1913 fiz uma longa caminhada através de serras desconhecidas dos turistas, naquela antiga região onde os Alpes caem em direção à Provença, no sul da França.
Naquela época, tudo ali era terra estéril e incolor. Nenhuma vegetação, além da lavanda silvestre. Eu atravessei a região em sua parte mais ampla e, após caminhar três dias, encontrei-me em meio à mais completa desolação. Acampei perto dos vestígios de uma aldeia abandonada. A água que levava acabara na véspera, e precisava encontrar alguma. Aquelas casas agrupadas, apesar de serem apenas ruínas, semelhantes a um velho ninho de marimbondos, sugeriam que deveria haver ali uma fonte, ou um chafariz. Havia, de fato, uma fonte, mas estava seca. As cinco ou seis casas, destelhadas, roídas pelo vento e pela chuva, a pequena capela com sua torre desmoronada, se situavam como casas e capelas de uma aldeia abandonada.

"Tive que mudar o acampamento. Após cinco horas de marcha, ainda não encontrara água nem sinal algum que me fizesse esperar encontrá-la. Ao meu redor tudo era seco; por todo lado, o mesmo capim grosseiro. Pareceu-me ver ao longe uma pequena silhueta escura, ereta; tomei-a por um tronco de árvore isolada. De qualquer maneira, dirigi-me em sua direção. Era um pastor. Trinta ovelhas estavam deitadas ao seu redor, sobre a terra quente e seca.

"Ofereceu-me um gole de seu cantil e, mais tarde, levou-me ao seu abrigo. Ele tirava sua água - excelente água - de um poço natural muito profundo, por cima do qual havia construído uma primitiva manivela.

"O homem falava pouco. É o hábito dos que vivem sós. Sentia-se que estava seguro de si, e confiante em sua segurança, o que era surpreendente naquela terra estéril. Ele não vivia num barraco, mas em uma verdadeira casa de pedras, que revelava claramente os esforços que empenhara em recuperar a ruína que ali havia encontrado.

"O lugar estava arrumado, a louça lavada, o chão varrido; a sopa fervia no caldeirão da lareira. Percebi, então, que ele estava de barba feita, que sua roupa tinha os botões bem presos e que estava remendada meticulosamente, a ponto de serem quase invisíveis os remendos. Repartiu comigo sua sopa. Seu cão, silencioso como o dono, era amistoso sem ser, no entanto, servil.

"Desde logo ficou subentendido que eu pousaria ali naquela noite; a aldeia mais próxima ficava a mais de um dia e meio de viagem. Aliás, eu estava perfeitamente familiarizado com o tipo das raras aldeias daquela região, somente quatro ou cinco. As famílias, aglomeradas, vivendo num clima excessivamente rude, tanto no inverno quanto no verão, não conseguiam escapar de constantes brigas entre si. Uma ambição irracional atingia proporções desordenadas sob o constante desejo de fuga. Os homens levavam à cidade suas cargas de carvão e regressavam. As mulheres cultivavam seus desgostos. Reinava rivalidade a qualquer propósito, sobre o preço do carvão, sobre o banco reservado na igreja, etc. E sobre tudo isso soprava o vento, incessante, a desgastar os nervos. Ocorriam epidemias de suicídio, e eram freqüentes os casos de insanidade mental, geralmente levando a homicídios.

"O pastor foi buscar um pequeno saco e derramou sobre a mesa um punhado se sementes de carvalho. Começou a examiná-las, uma por uma, muito concentrado, separando as boas das más. Eu fumava meu cachimbo. Ofereci-lhe minha ajuda. Ele disse que era tarefa sua. E, realmente, vendo o cuidado que ele dedicava ao que fazia, não insisti. Nossa conversa limitou-se a isso. Após ter separado um monte de sementes aprovadas, ele as dividiu em montinhos de dez, eliminando ainda algumas pequenas ou ligeiramente machucadas, pois agora as examinava mais de perto.

"Tendo selecionado, assim, cem sementes perfeitas, parou sua tarefa e fomos dormir.

"Reinava a paz ao redor desse homem. No dia seguinte, perguntei-lhe se poderia descansar ali mais um dia. Ele achou o pedido natural, ou melhor, deu-me a impressão de que nada poderia surpreendê-lo. Eu não precisava tanto de repouso, mas estava interessado, e desejava saber mais sobre ele.

"Ele abriu o cercado e levou suas ovelhas ao pasto. Antes de partir, mergulhou as sementes selecionadas e contadas num balde com água. Notei que o bastão que levava era uma vara de ferro da espessura de um polegar e de um metro e pouco de comprimento. Eu descansava, caminhando por uma trilha paralela à dele. O pasto ficava num vale. Ele deixou o pequeno rebanho aos cuidados do cão e subiu em direção ao lugar onde eu estava. Pensei que iria censurar minha indiscrição, mas estava enganado; era o caminho que ele queria trilhar e convidou-me a acompanhá-lo.
Galgou o topo da elevação, a cerca de 100 metros. Ali começou a furar a terra com seu bastão, abrindo um buraco no qual plantou uma semente; em seguida cobriu o buraco com terra.

"Estava plantando carvalhos. Perguntei-lhe se a terra lhe pertencia. Ele respondeu que não. Quem era o proprietário? Ele não sabia. Supunha que fossem propriedades do governo, ou talvez pertencesse a pessoas desinteressadas. Ele não se preocupava em saber de quem era a terra. Plantou suas cem sementes com extremo cuidado. Depois do almoço recomeçou a plantar. Acho que insisti bastante em minhas perguntas, pois ele me respondeu. Havia três anos que ele estava plantando árvores naquele deserto.
Já plantara 100.000. Destas, 20.000 haviam brotado. Das 20.000, ele calculava que ainda perderia a metade por causa de animais roedores ou das intenções imprevisíveis do Destino. Restariam 10.000 árvores a crescer onde nada crescera antes.

"Foi então que comecei a pensar sobre a idade que poderia ter esse homem. Tinha mais que cinqüenta e cinco, disse-me ele. Seu nome era Elzéard Bouffier. Possuira uma fazenda na planície. Ali vivera sua vida. Perdera o filho único e, depois, também a mulher. Retirara-se então para essa solidão, acompanhado de seu cão e de suas ovelhas. Achava que essa terra estava morrendo por falta de árvores. E, não tendo nada de urgente a fazer para si mesmo, resolvera remediar essa situação.

"Eu, apesar de jovem, levava naquela época uma vida solitária, e sabia, por isso, lidar com gente solitária. Mas o próprio fato de ser jovem fazia-me encarar o futuro em relação a mim mesmo e, com uma certa procura da felicidade. Disse-lhe que seus
10.000 carvalhos estariam magníficos após trinta anos. Ele respondeu simplesmente que, se Deus lhe concedesse vida, dentro de trinta anos ele teria plantado tantos carvalhos que esses 10.000 seriam como uma gota de água no oceano. Além disso, ele estava pensando em também plantar faias e bétulas.

"No dia seguinte nos despedimos. Anos mais tarde, tive desejo de rever o solitário pastor. Admirei-me com a transformação. As faias já estavam crescendo no vale, muito viçosas, e as bétulas estavam bem desenvolvidas. Parecia ter sido desencadeada uma criação em série. Bouffier não se importava; simplesmente prosseguia sua tarefa, com perseverança e determinação. Ao voltarmos em direção à aldeia, vi água correndo nos leitos de riachos secos desde tempos imemoriais. Foi esse o mais impressionante resultado de reação em série que eu já havia visto. Os riachos ressecados já haviam carregado água, há muito tempo. Algumas das tristes aldeias que mencionei haviam sido construídas no local de antigos acampamentos romanos, cujos vestígios ainda existiam; e os arqueólogos, pesquisando na região, tinham encontrado anzóis, num lugar onde, no século XX, era preciso cavar poços para obter um pouco de água.
"O vento também espalhava sementes. À medida em que a água reaparecia, ressurgiam também salgueiros, junco, prados, jardins e flores, e um certo sentido para a vida. Mas a transformação ocorria aos poucos, modificando o ambiente sem causar surpresa. É verdade que os caçadores, escalando os penhascos desertos à procura de lebres ou javalis, notavam o crescimento súbito de pequenas árvores, mas o atribuíram a algum capricho da terra. Eis porque ninguém interferiu no trabalho de Bouffier. Se tivesse despertado a atenção, logo teria surgido uma oposição. Não o descobriram.
Ninguém, nas aldeias ou na administração, poderia ter sonhado com tal perseverança, nascida de tão magnífica generosidade.

"Para formar-se uma idéia aproximada daquele caráter excepcional, não deve ser esquecido o fato de ele ter trabalhado em solidão absoluta; tão absoluta que, na velhice, perdeu o hábito da fala. Ou talvez, não mais a achasse necessária.

"Em 1933, recebeu a visita de um guarda florestal, que lhe transmitiu uma ordem:
proibição de acender fogo ao ar livre, para proteger o crescimento daquela floresta "natural". O homem disse ao guarda, inocentemente, que, pela primeira vez ouvia falar em uma floresta que crescia por conta própria. Nessa época, Bouffier estava se preparando para plantar faias a cerca de 12 quilômetros de sua cabana. Para evitar constantes caminhadas - pois já estava com 75 anos - planejou a construção de um abrigo de pedra no sítio da plantação. No ano seguinte realizou esse plano.

"Em 1935, toda uma delegação do governo chegou para examinar a "floresta natural". Houveram muitas conversas ineficientes. Decidiu-se que algo tinha que ser feito e, felizmente, nada se fez além da única medida útil; toda a floresta foi colocada sob a proteção do governo e proibiu-se a carvoagem, pois era impossível não se ficar cativado pela beleza dessas jovens árvores em pleno desenvolvimento.

"Um amigo meu, funcionário do Serviço Florestal, fazia parte daquela delegação.
Expliquei-lhe o mistério. Um dia, na semana seguinte, fomos ambos visitar Bouffier.
Encontramo-lo trabalhando arduamente, a cerca de 10 quilômetros do local onde havia sido feita a inspeção.

"Esse funcionário sabia perceber o valor das coisas. E sabia manter silêncio.
Entreguei a Bouffier os ovos que trouxera como presente. Almoçamos juntos, os três, e passamos várias horas a contemplar, em silêncio, a paisagem.

"Na direção de onde viéramos, as encostas estavam cobertas de árvores que mediam entre 7 a 8 metros. Lembrei-me do que ali havia em 1913: um deserto... O trabalho regular e tranquilo, o vigoroso ar da montanha, a frugalidade e, sobretudo, o espírito sereno, haviam dotado aquele velho com uma saúde que inspirava respeito.
Ele era um dos atletas de Deus. Fiquei imaginando quantos acres ele ainda iria cobrir de árvores.

"Antes de partir, meu amigo simplesmente fez alguma sugestão quanto a certas espécies de árvores, para as quais o solo parecia apropriado. Não insistiu. "Pela simples razão", disse-me ele mais tarde: "que Bouffier entende mais disto do que eu".
Após caminharmos mais de uma hora - e tendo meditado sobre aquilo - disse ainda:
"Ele sabe muito mais do que qualquer outro. Ele descobriu um modo maravilhoso de ser feliz.".

"Foi graças a esse funcionário que ficou protegida a floresta. Designou para aquela região três guardas florestais aos quais incutiu tanto medo, que eles ficaram insubornáveis, por mais litros de vinho que lhes oferecessem os carvoeiros.

"A única vez em que o trabalho de Bouffier ficou seriamente ameaçado foi durante a guerra de 1939. Os carros eram movidos a gasogênio (geradores alimentados por lenha) e sempre faltava lenha. Começaram a derrubar os carvalhos, mas como a região era muito afastada de qualquer via férrea, o empreendimento se revelou financeiramente insustentável e foi abandonado. O pastor nada tinha visto. Estava a 30 quilômetros dali, trabalhando em paz, sem tomar conhecimento da guerra de 1939, como fizera também em 1914.

"Vi Elzéard Bouffier pela última vez em junho de 1945. Ele completara 87 anos. Eu resolvera atravessar novamente o caminho daquelas terras áridas; mas apesar da desordem deixada pela guerra, havia agora um ônibus que passava entre o vale da Durance e a montanha. Atribuí 'a relativa velocidade do transporte o fato de não reconhecer as paisagens de minhas viagens anteriores. Foi somente ao ver o nome de uma aldeia que me convenci de estar realmente naquela região, que antes era só ruínas e desolação.

"O ônibus deixou-me em Vergons. Em 1913, essa aldeia de dez ou onze casas, tinha três habitantes. Eram criaturas selvagens, odiavam-se mutuamente, viviam de caça por armadilhas e pouco e distanciavam, física e moralmente, das condições do homem pré-histórico. Os restos das casas abandonadas estavam cobertos de urtigas. A condição daquela gente não admitia qualquer esperança. Nada mais lhes restava, senão esperar pela morte - situação que dificilmente podia predispô-los à virtude.

"Tudo agora estava mudado. Até mesmo o ar. Ao invés do vento seco e áspero que me atacara, soprava uma brisa suave, carregada de perfume. Da montanha descia um som semelhante ao da água; era o vento na floresta; e, surpresa ainda maior, ouvi um ruído de água, de fato, caindo num tanque; vi que havia sido construído um chafariz, onde a água corria livremente, e o que mais me emocionou - alguém plantara, ao lado do chafariz, uma tília; a tília, que devia ter uns quatro anos, coberta de folhas, era o símbolo incontestável da ressurreição.

"Além disso, a cidadezinha Vergons apresentava os sinais evidentes de trabalho, que só empreende quem tem esperança. A esperança, portanto, havia voltado. As ruínas haviam sido afastadas e cinco casas estavam restauradas. Eram agora vinte e oito os habitantes, entre os quais quatro jovens casais.

As casas novas, recém rebocadas, estavam cercadas de jardins onde cresciam, em conjunto, verduras e flores, repolhos e rosas, alho-porró, funcho e anêmonas. Era agora uma aldeia onde se gostaria de viver.

"Desde então, em apenas oito anos, toda a região passou a irradiar saúde e prosperidade. Nos antigos leitos, alimentados pelas chuvas e pela neve que a floresta conserva, correm novamente os riachos. Águas foram canalizadas. Em cada propriedade rural, entre pequenos bosques, há fontes cujas águas transbordam sobre tapetes de hortelã. Aos poucos, as aldeias foram reconstruídas. Gente da planície, onde o terreno é caro, veio estabelece-se aqui, trazendo juventude, movimento, evolução. Ao longo das estradas encontram-se homens e mulheres sadios, meninos e meninas que sabem rir, e que redescobriram o sabor dos convescotes. Incluindo a população anterior, irreconhecível agora, a viver confortavelmente, mais de 10.000 pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier (sem o saber).

"Quando penso que um homem, munido unicamente de seus próprios recursos físicos e morais, foi capaz de fazer nascer desse deserto uma tal Canaã, sinto a convicção de que, apesar de tudo, a humanidade é digna de admiração. Mas, quando calculo a infalível grandeza de espírito e a tenacidade da benevolência necessária para alcançar esse resultado, sinto um respeito imenso pelo velho camponês sem instrução, que foi capaz de completar uma obra digna para Deus.


"Elzéard Bouffier morreu em paz, em 1947, no asilo de Banon."
Jean Giono

Fonte: http://morada.multiply.com/reviews/item/3
 
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