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Lições do círculo de fogo

Habitantes de um arquipélago incrustado no chamado "círculo de fogo", com passado milenar de tsunamis, terremotos e tufões, os japoneses são um povo consciente de sua vulnerabilidade, garante o historiador americano Andrew Gordon. E é justamente esse profundo entendimento dos perigos de viver sobre uma terra trêmula que os reveste de constante "sentido de prontidão", completa o pesquisador do Instituto Reischauer de Estudos Japoneses, da Universidade Harvard.

Gordon não tem dúvida de que o preparo para lidar com situações tão extremas é lição tirada do passado sísmico. Em 1923, o terremoto Kanto, considerado a pior calamidade natural já enfrentada pelo país, matou 145 mil pessoas e ajudou a definir a vida no Japão moderno. Até hoje a data de aniversário desse tremor, no mês de setembro, é reservada ao treinamento de segurança em escolas e empresas. Não é à toa que, apesar da magnitude da destruição causada pelo recente terremoto, seguido de tsunami e também de ameaça nuclear, a operação de resgate dos sobreviventes e a busca dos desaparecidos tem se dado com surpreendente calma e organização. "Nem sempre foi assim", explica Gordon, também autor de A Modern History of Japan (Oxford University Press, 2003), atentando para o fato de que muitos foram os anos de desordem e caos japonês. "Essa sociedade ordenada que vemos agora é fruto do aprendizado social do pós-guerra."

Foi também da necessidade de reerguer um país dilacerado por duas bombas atômicas que a sociedade japonesa, em meio aos esforços de reconstrução daquela que já assumiu o posto de segunda maior economia global, finalmente reencontrou a unidade e construiu seu orgulho nacional. Talvez agora, calcula o professor, se o governo conseguir manejar com eficiência a crise nas plantas nucleares do complexo Fukushima-Daiichi, tenha enfim chegado a hora de reconquistar o orgulho ferido pelo mal-estar das duas longas décadas de estagnação econômica. E, de quebra, os governantes poderão finalmente recuperar o prestígio perdido.

Japoneses parecem ser veteranos

em catástrofes. Até que ponto a instabilidade da vida nesse superpovoado arquipélago se traduz nas relações sociais que

definem a identidade japonesa?

Os japoneses estão, sim, conscientes de sua vulnerabilidade. Mas, tendo vivido nove anos no Japão e com muito amigos lá, custo a acreditar que isso seja um traço definidor do caráter japonês. Agora, é verdade que esse profundo entendimento dos perigos da vida nas ilhas se manifesta no cotidiano do povo na forma de um sentido de prontidão. Eles sempre estão, em alguma medida, preparados para responder a uma crise. E isso tem explicação histórica. Em 1923 o terremoto Kanto atingiu a maior ilha do país, Honshu, e é considerado a pior calamidade da história japonesa. O tremor, que matou 145 mil pessoas, ajudou a definir a vida no Japão moderno. Desde então, o aniversário do tremor, 1º de setembro, é dedicado ao treinamento contra terremotos. Nesse dia, todas as escolas e empresas são esvaziadas em exercícios de segurança. Mas às vezes mesmo todo esse preparo se eclipsa. Quando o terremoto Hanshin atingiu Kobe, em 1995, a resposta do governo não foi a melhor. As autoridades, alimentadas pela arrogância, se recusaram a pedir ajuda aos estrangeiros e organizações privadas. Mas o governo não era capaz de lidar sozinho com a situação e a população se surpreendeu com a ineficiência de seus líderes e o despreparo do país. O que impressionou então foi a participação da sociedade civil nos trabalhos de resgate. Esse papel foi reconhecido e mudanças legislativas que facilitaram a atividade de ONGs e fortaleceram a sociedade civil foram postas em prática. Em relação ao desastre de agora, vemos que o Japão avançou muito. O resgate é organizado, as pessoas foram encaminhadas para abrigos, a distribuição de comida funciona e as estradas logo estavam de novo transitáveis. Não houve saques nem pânico. Parece que as autoridades aprenderam com o passado.

É comum que catástrofes sejam sucedidas pelo enfraquecimento da ordem social. Saques foram problema depois do furacão em New Orleans, do terremoto no Haiti e das tempestades no Rio. Como entender tanta ordem e disciplina no Japão diante da desgraça?

Os japoneses têm em si uma determinação em perseverar, resistir. Não me surpreenderia com uma manifestação de ira aguda em relação ao modo como certos aspectos da crise nuclear estão sendo administrados. Mas por hora as críticas estão silenciadas e prevalece um sentimento, um pacto social de manter a ordem e a calma. O interessante de observar é que esse comportamento não está impresso no DNA da cultura japonesa, não é uma característica milenar. É fruto de um aprendizado social. No último meio século os japoneses assumiram um compromisso com a ordem no país, processo esse diretamente ligado a um projeto educacional do governo no pós-guerra. No final dos anos 40 os índices de criminalidade e delinquência em Tóquio eram altos. Existia também uma disputa política hostil e brigas no Parlamento eram muito comuns. Muitos outros períodos da história do Japão também são marcados pela desordem. Há registros do começo do século 20, quando os carros foram introduzidos na capital, que retratam as ruas de Tóquio como cenas urbanas de caos e destruição, com carros desgovernados se chocando violentamente uns contra outros. Hoje, é espantoso ver a organização das estações de metrô. O trem chega e as pessoas estão organizadinhas em fila indiana, respeitando as inscrições no chão da plataforma que indicam o espaço para esperar em cada porta do vagão. Essa sociedade que vemos agora, com esse jeito ordenado de se conduzir, é uma conquista relativamente recente.

Segundo o depoimento de um sobrevivente do tsunami no jornal The New York Times, "os japoneses raramente sentiram orgulho de seu país desde a 2ª Guerra. Mas agora estamos tentando defender a nação juntos ... orgulhosos de sermos japoneses de novo". Esse episódio poderá unir o povo?

Um sentimento de determinação poderá emergir desse acontecimento se a recuperação for marcada por eficiência e inovação. Isso trará um certo orgulho e uma mudança positiva na autoestima do japonês. Mas acho exagero dizer que o japonês não sinta orgulho de ser japonês desde o fim da guerra. Minha nossa! Dos anos 50 aos 80 existiu um orgulho enorme no Japão pela capacidade de o país se reconstruir depois da guerra e reassumir seu papel no mundo como uma nação pacífica, se tornando a segunda maior economia global. Aliás, o orgulho no final dos anos 80 era tão exacerbado que podemos falar de arrogância japonesa. Sem dúvida esse orgulho foi ferido nos últimos 20 anos e existe um mal-estar disseminado por conta da estagnação econômica.

Esse desastre pode significar uma oportunidade de retomada do crescimento japonês?

Reconstruir sempre impulsiona a economia. O governo deverá disponibilizar uma linha de crédito para que as pessoas reconstruam suas casas, o que levará ao surgimento de construções modernas no lugar das antigas. De certo modo, em toda a história moderna japonesa há a posição de olhar para o mundo, ver como as coisas são feitas e incorporar as técnicas que parecem mais eficientes. Agora, se essa reconstrução vai se dar além do que foi perdido e representar, de fato, um crescimento e inovação, ainda não há como saber.

Até que ponto o vazamento de material

radioativo em Fukushima reavivou na

memória coletiva a situação de vulnerabilidade do país depois dos bombardeios de

Hiroshima e Nagasaki?

Essa é uma conexão muito lógica e é difícil negar que esse medo não esteja presente agora. Mas ainda estou tentando entender a calma dessas pessoas. Se o vazamento tivesse acontecido nos Estados Unidos, os moradores a 200 quilômetros da planta estariam fugindo como loucos. Os habitantes da região de Sendai num raio de 20 quilômetros só deixaram a área a pedido do governo, e nos 10 quilômetros seguintes, não. Se o trauma deixado por Hiroshima e Nagasaki estivesse tão fresco na memória coletiva, por que essas pessoas não estariam fugindo em massa? Uma hipótese é que elas estejam muito mais bem informadas que nós sobre os reais perigos dos diferentes níveis de exposição à radiação. As leituras postadas no site do governo a cada hora mostram índices relativamente baixos. Talvez os japoneses entendam as diferenças entre os níveis perigosos e os inexpressivos precisamente por causa dessa experiência anterior com as bombas atômicas.

Há notícia também de moradores das cidades mais atingidas pelo tsunami e terremoto que, mesmo tendo família e amigos em localidades mais seguras e menos devastadas, querem ficar e ajudar a reconstruir suas cidades por um sentimento de lealdade aos vizinhos e empregadores. Quão forte é a mentalidade de grupo na sociedade japonesa?

Isso não me surpreende tanto quanto a questão nuclear. Os japoneses são um povo com um forte sentimento de comunidade. A população do norte do Japão, perto das áreas atingidas, diminuiu muito nos últimos 70 anos devido a movimentos migratórios. Então esse sentimento de pertencimento, esse enraizamento, é ainda mais forte entre os que permaneceram e decidiram fazer ali seu lar. Estes têm um compromisso muito poderoso com aquela terra.

Mesmo a busca pelos desaparecidos está sendo conduzida com aparente calma. Essa aceitação da tragédia é de alguma forma explicada pelo entendimento budista da morte?

Os japoneses são muito discretos quanto a sua religião. Eles não vestem a camisa de suas crenças em público. Não acredito que o sentimento religioso esteja no coração da reposta ao desastre. Posso estar errado. Existe um livro famoso, The Rush Hour of the Gods, que mostra como, no final da 2ª Guerra, ao longo dos anos 40, houve um despertar de novos cultos e um crescimento da religião. As pessoas estavam desesperadas com a derrota do país. Então, será interessante observar se esse trauma vai impulsionar um movimento de aproximação com a religião em busca de algum conforto e significado. Pode ser que aconteça, porque assim foi no passado.

As autoridades estão sendo acusadas

de não comunicar devidamente ao

público os riscos da radiação. Existe

descontentamento com o governo?

Mesmo antes do terremoto o governo vinha perdendo muito prestígio e popularidade, tornando-se, aos poucos, insignificante para algumas esferas da sociedade. No curto prazo, parece que as pessoas estão colocando essas críticas de lado na intenção de fazer o melhor para lidar com a tragédia. Estão se esforçando para apoiar e confiar em seus líderes. Essa poderia ser uma grande oportunidade para o governo reconquistar o apoio perdido. Mas não está claro se isso está acontecendo. Se o desastre tivesse se limitado ao terremoto e ao tsunami, diria que haveria mais chances de mostrar liderança, mas com a crise nuclear a situação está difícil de controlar. Minha expectativa inicial era de que o governo seria impulsionado pela tragédia e consolidaria uma nova unidade.

fONTE: ESTADAO
 
bom saber :D
 
Aham, ok...
 
xD :icon_mrgreen:
 
kibom :D