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Interlúdio para uma visita

Quando se anunciou que Obama faria um discurso público na Cinelândia algumas viúvas de Leonel Brizola se enciumaram, pois consideram a praça um santuário trabalhista, daí o apelido de Brizolândia, do qual, aliás, só eles parecem se lembrar. Ora, Cinelândia já é um apelido (seu verdadeiro nome é Praça Floriano) e o evento mais marcante de sua história não foi, com todo respeito, aquele comício de Brizola, em 1982, mas a passeata dos 100 mil contra a ditadura militar, que lá teve início, em junho de 1968. Ciúme bobo, portanto, e sem fundamento desde que a segurança do presidente americano trocou a praça pelo Teatro Municipal.

Quando se anunciou que Obama discursaria para os cariocas num palanque armado na Cinelândia, a primeira coisa de que me lembrei foram os furtivos encontros que dois conterrâneos do presidente americano tiveram nos bancos daquela praça e numa das mesinhas do Bar Amarelinho, 65 anos atrás. Furtivos porque os dois, Alicia Huberman e T. R. Devlin, eram espiões a serviço do governo americano e não podiam dar sopa por aí. Por que na Cinelândia? Por ser uma praça movimentada e porque naquele majestoso prédio que há dois séculos abriga a Biblioteca Nacional ficava a Embaixada dos Estados Unidos e, dentro dela, o escritório do Office of Strategic Services (OSS), embrião da CIA, no Brasil.

Quem então coordenava as operações do OSS no Rio era um sujeito de avuncular catadura chamado Paul Prescott. Se o presidente Harry Truman viesse ao Brasil naquela época (estamos em abril/maio de 1946), caberia a Prescott cuidar de sua segurança. Mas, como é sabido, Truman só visitou o Rio em 1947, trazido pela Conferência para a Manutenção da Paz e Segurança Continental, justo no mesmo mês, setembro, em que, não por acaso, o OSS virou CIA. Prescott já saíra de cena. Não uso essa expressão metaforicamente, pois Prescott era, como Alicia e Devlin, um personagem de cinema, interpretado por Louis Calhern.

Ingrid Bergman encarnava Alicia e Cary Grant, Devlin. Atrás da câmera, Hitchcock, na ponta dos cascos: Interlúdio (Notorious) talvez seja o mais charmoso filme sobre a nascente Guerra Fria, só oficialmente reconhecida em abril de 1947, ou seja, um ano depois da chegada de Alicia e Devlin ao Rio e cinco meses antes da viagem de Truman, mas já nos seus prolegômenos quando Prescott apertou o cerco a uma quadrilha de espiões alemães envolvida em contrabando de urânio.

Não bastasse a confluência de Truman com Obama e a Cinelândia, Interlúdio começava com a condenação de John Huberman, pai de Alicia, por espionagem em favor dos nazistas. Huberman nos remete a outro espião, só que real e entre aspas: Bradley Manning, que Obama deixou mofando numa solitária da Marinha americana, em Quantico (Virgínia), ao embarcar para o Brasil.

O soldado Manning está preso há quase um ano por seu envolvimento com o WikiLeaks. Analista do setor de inteligência do Exército americano, teria repassado a Julian Assange todos aqueles documentos classificados sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão vazados para a imprensa. Sobre ele pesam 22 acusações, e uma delas ("colaborar com o inimigo") pode até condená-lo à pena de morte. Huberman, o assumido espião de Interlúdio, embora a soldo de um inimigo concreto dos Estados Unidos, escapou da cadeira elétrica.

Tratado como um Lex Luthor da espionagem, com direito a apenas uma hora fora da solitária e obrigado a enfiar-se, despido, numa bata antissuicídio, antes de dormir, Manning transformou-se no mais ruidoso caso de violação dos direitos humanos nos Estados Unidos dos últimos tempos. O tratamento a ele dispensado é "degradante", protestou a Anistia Internacional. No dia 11, durante uma palestra sobre mídias sociais para uma pequena plateia, no Massachusetts Institute of Technology, o porta-voz do Departamento de Estado P. J. Crowley expressou com três adjetivos o que acha da forma como o militar vem sendo tratado na prisão: "ridícula, contraprodutiva e ______". Dois dias depois, demitiu-se (ou foi instado a demitir-se) do cargo.

Pressionado a pronunciar-se sobre o episódio, Obama justificou o confinamento de Manning. "Fui informado pelo Pentágono que ele está recebendo o tratamento apropriado", lavou as mãos o presidente, no melhor estilo Bush. "Será que Obama perguntou a Lloyd Blankfein (do Goldman Sachs) sobre a ocorrência de fraudes no sistema financeiro e, ao ouvi-lo dizer não, desistiu de mandar prendê-lo?", gozou o comentarista político Glenn Greenwald, o mais persistente observador da campanha de difamação movida contra o WikiLeaks, pela mídia e pela Casa Branca.

Quando o general Eric Shinseki manifestou-se contrário ao plano de Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz para ocupação do Iraque, Bush o puniu exemplarmente, escandalizando os democratas, que acusaram o governo republicano de intolerante e fechado ao debate de ideias. Idêntica reação tiveram os democratas quando Bush demitiu seu conselheiro econômico, Lawrence Lindsey, por ele ter dito em público que a guerra no Iraque poderia custar US$100 bilhões ao bolso do contribuinte. Por que os democratas não questionaram a demissão de Crowley? Sorte deles os republicanos se lixarem para o que possa estar acontecendo com Manning.

Inimigo dos EUA ele, Manning, decididamente, não é. Se de fato vazou os documentos que revelam ações criminosas de tropas americanas no Iraque e no Afeganistão, quem deveria estar atrás das grades é o pequeno núcleo do governo que as planejou ou para elas fez vista grossa. "O verdadeiro inimigo ajudado por Manning foi o povo americano", protestou o reverendo William E. Alberts, no site da Counterpunch. Indignado com a prisão do suposto informante do WikiLeaks, o reverendo o indicou, esta semana, ao Nobel da Paz. Se Obama levou o galardão mesmo tendo mantido as duas guerras do Bush e aumentado a escalada militar no Afeganistão, por que não Manning?

Fonte : estadao
 
eu vi na TV .

ASUHAUSHUA
 
lemao^ Escreveu:eu vi na TV .

ASUHAUSHUA

eu tbm