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Diplomacia do encontrão

A quem ansiava por uma mísera declaração do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a respeito da reforma do Conselho de Segurança da ONU, a voz diplomática do Brasil fazia muxoxo: "Um discurso dos EUA sobre o país x ou y é uma manifestação de respeito pela política externa do país, mas não é em si mesmo uma panaceia", disse o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Aguardada era uma postura de igual para igual entre os dois lados, que envolvesse "múltiplas frentes de interlocução" nos temas de interesse global.

O embaixador Luigi R. Einaudi segue raciocínio parecido nas linhas abaixo, produzidas para a National Defense University, em Washington, onde atua como pesquisador visitante. Ele vê a necessidade fundamental de um engajamento estratégico entre os dois países, que requereria basicamente o seguinte: os EUA aceitam o Brasil como potência emergente política e culturalmente próxima deles, e o Brasil se dá conta de que os EUA aceitam sua ascensão. Ex-professor em Harvard, Ucla e Georgetown, Luigi Einaudi dirige uma fundação de mesmo nome, que é também o de seu avô, o primeiro presidente da Itália pós-fascista. A seguir, suas considerações sobre esses dois países destinados a tropeçar um no outro ao redor do mundo.

O poder da singularidade

"A identificação do Brasil com a América Latina e o Terceiro Mundo impede a apreciação de sua importância pelos EUA. É verdade que, geograficamente falando, o Brasil é parte da América Latina, como é verdade que o país, fundador do Grupo dos 77, pareava com a Índia entre os líderes originais do Terceiro Mundo. Mas o Brasil é o Brasil - tão grande quanto os EUA e a China, e tão singular quanto ambos. Brasileiros e americanos têm um agudo senso pragmático e governos com alcance para além de suas fronteiras, mas são profundamente voltados para si mesmos e cientes de sua própria natureza excepcional (da qual, às vezes, decorre uma excessiva autoestima). Se essas características os aproximam, sua história e visão de mundo únicas também os separam. A aliança automática do passado já não existe mais.

Corrente antiamericana

"Uma nova geração de líderes brasileiros tende a ver a influência política e econômica dos EUA, e do Ocidente em geral, como obstáculo genérico à ascensão do Brasil. Sentimentos como esse alimentaram a Unasul, os mecanismos inter-regionais do Diálogo Sul-Sul e o Bric. Incontestáveis e positivas em si mesmas, essas iniciativas muitas vezes vêm acompanhadas de um subjacente antiamericanismo. A tentativa do presidente Lula de romper o impasse em relação ao programa nuclear do Irã teve suas raízes, parcialmente, em antigas tensões com os EUA sobre o programa nuclear brasileiro. Mas derivou também da convicção de que os americanos são muitas vezes parte do problema e o Brasil pode encontrar soluções que outros, inclusive os EUA, deixaram passar. A visão dos EUA sobre o Brasil como parceiro não confiável, relutante em fazer escolhas difíceis, porém necessárias, para a manutenção da ordem mundial, subitamente refletiu a visão brasileira sobre os americanos como dedicados ao aventureirismo militar no Iraque.

Extracurricular

"EUA e Brasil têm vastos interesses sobrepostos, mas uma parceria estratégica formal está fora de cogitação. Nos EUA, o Brasil tem que competir, em termos de atenção política, com China, Índia, Rússia, Japão, México e países europeus. E, apesar de sua importância nas organizações multilaterais, pode ser na melhor das hipóteses de limitada assistência prática para os EUA em suas duas guerras atuais. Por sua vez, pode-se dizer que os interesses do Brasil precisam se distinguir dos interesses americanos. Isso quer dizer que nenhum dos dois pode esperar do outro um acordo automático.

Toureando a rigidez

"A lista de questões globais em que o Brasil vem se tornando ator importante inclui solução de conflitos, questões nucleares, meio ambiente e desenvolvimento de leis internacionais. Assegurar consultas eficazes sobre tantos temas exige suavizar o estilo rígido de gestão. Historicamente, o Departamento de Estado americano tem deixado questões funcionais para os escritórios organizados mundialmente. Isso dificulta as consultas com países como o Brasil, cujo alcance vai além de sua região. O resultado é que as questões multilaterais são consideradas isolada e tardiamente no governo dos EUA. Há algo, por exemplo, que EUA e Brasil poderiam fazer para compensar os efeitos negativos do comércio da China sobre a indústria manufatureira em ambos os países? Tem-se a impressão de que são duas sociedades vibrantes, com mais coincidências do que percebem, mas sem uma linguagem comum.

Mais diplomacia, por favor

"Muitos brasileiros hesitarão em cooperar com os EUA se os americanos continuarem a proteger seus produtos agrícolas, seguirem com o embargo a Cuba, houver a percepção de que têm ambições sobre a Amazônia ou de manter tropas na América do Sul ou não endossarem as ambições brasileiras por um assento no Conselho de Segurança. Já alguns americanos questionarão a aproximação com um Brasil visto como um país que está desfrutando do luxo dos irresponsáveis até que aceite maior responsabilidade na não proliferação nuclear, distancie-se do Irã e esteja mais presente em questões de democracia e direitos humanos.

Internamente...

"As políticas externas de ambos deverão ser cada vez mais limitadas por fatores internos. Nos EUA, a preocupação com a dívida e o enfraquecimento da competitividade interna está aumentando. O Brasil teve dois presidentes sucessivos cujo carisma os ajudou a mascarar as vulnerabilidades internas; com isso, passaram para a presidente Dilma Rousseff o enorme desafio de institucionalizar seu êxito. Mas nem os EUA nem o Brasil são poderosos o suficiente para resolver sozinhos muitos dos problemas que afetam sua segurança nacional. Washington e Brasília, se não trabalharem juntas, perderão oportunidades e causarão dano aos próprios interesses." / TRADUÇÃO: ELOISA D. MARQUES

Fonte: Estadao