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Carlinhos Brown e Lobão levando garrafadas no Rock in Rio



 
Lobão: Rock in Rio prejudica a auto-estima do País
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O músico, rechaçado por platéia de metaleiros há dez anos, critica agressões a Carlinhos Brown, diz que o público roqueiro nacional é o mais reacionário que existe e responsabiliza a organização do festival.
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Eleger o judas da vez está se tornando praxe na história do Rock in Rio. Em 1991, durante a segunda edição do evento, o roqueiro Lobão foi o alvo das latas de cerveja, algumas repletas de areia, que eram arremessadas da platéia por um público irado. Quando subiu ao palco montado em Jacarepaguá, Lobão percebeu que tinha escolhido a noite errada para se apresentar. Era tarde. Parou a música, xingou a multidão e, antes que ocorresse uma tragédia, saiu às pressas.
Dez anos depois, Lobão assiste à terceira edição do Rock in Rio de sua casa, no Rio de Janeiro. Em entrevista ao JT, o mais rebelde rebento da geração do rock 80 solta o verbo contra público e organizadores do evento, classifica os roqueiros nacionais de burros e lamenta o que ocorreu no domingo com Carlinhos Brown, seu sucessor na galeria dos vaiados do festival.
Segundo o músico carioca, a platéia brasileira ainda resiste às novidades e só aprova o que já passou pelo crivo da mídia.
Jornal da Tarde - Em 91 você foi o Carlinhos Brown da vez. Aquela vaia que recebeu na segunda edição do Rock in Rio mudou algo em sua carreira?
Lobão - Mudou sim. Foi neste momento que decidi nunca mais tocar pensando só em empolgar as pessoas. Pode ver em minha discografia, depois de 91 jamais gravei um disco de releituras.

O que aconteceu naquela noite?
Eu mesmo escolhi tocar na noite dos metaleiros. Passariam pelo palco Iron Maiden, Guns n'Roses e Megadeth. Um ano antes eu havia dado o mesmo show para um público de roqueiros, que acabou sendo considerado o melhor. Mas, em 91, subi ao palco ouvindo um coro dizendo `1, 2, 3, 4, 5 mil, queremos que o Lobão vá para aquele lugar'. O clima já estava pesado antes de eu entrar no palco.

Que balanço você faz do que aconteceu na cidade do rock até agora?
De maneira subliminar, o Rock in Rio afeta negativamente a auto-estima dos brasileiros. Seja na maneira como a mídia dá destaque às atrações internacionais em detrimento das nacionais, seja na relação empresários-artistas brasileiros. Os nacionais continuam sendo muito desrespeitados.

O que aconteceu com o público de rock no Brasil?
É um público _____, que nunca evoluiu. As pessoas não aceitam nada que seja estranho ao que elas conhecem pela mídia. Veja o que aconteceu no Rock in Rio. O Axl Rose foi ovacionado por fazer um show medíocre, sem novidades. Quase chegou a pedir desculpas quando foi tocar uma música nova, e ficou visível que estava fora de forma. Já o Oasis, que fez um show muito competente, tocou para uma platéia fria. As pessoas estão sofrendo de uma patologia social.

Como assim?
O público roqueiro é o público mais reacionário que existe. Ao mesmo tempo em que prega a quebra do sistema, não aceita novidades. Isso faz com que o próprio artista tente ser uma réplica dos modismos importados. Temos uma cultura negra maravilhosa no Brasil, mas as pessoas estão cegas.

Você não é um roqueiro?
Por estas coisas que estou te falando, deixei de querer ter qualquer associação com os roqueiros nacionais. Prefiro viver em um universo paralelo, onde acabo ficando entre os xiitas do rock-and-roll, os xiitas da MPB. Mas tenho o meu espaço.

O que mais te chamou a atenção neste Rock in Rio?
Além das vaias a Carlinhos Brown, fiquei preocupado com a ovação que recebeu o Axl Rose. É preocupante entrar em um novo milênio com estes valores.

Em uma pesquisa via Internet, seu nome estava entre os preferidos do público para participar do evento. Você chegou a ser convidado pelos organizadores?
Fui convidado mas disse não. Fiquei sabendo que os brasileiros estão recebendo um cachê irrisório, cerca de R$ 10 mil em média. Enquanto isso, o Santana viria para receber R$ 1 milhão. Isso também afeta a auto-estima de um país.

E a oportunidade de se apresentar para quase 200 mil pessoas? Não pesou na decisão?
Duvido que os empresários chegam para o Foo Fighters, por exemplo, com a seguinte proposta: Há um grande show para se fazer no Brasil. O cachê não é muito, mas vai ter gente para ver. Isso é uma proposta indecente.

Quando ocorre uma vaia de grandes dimensões, a culpa é do artista ou do público?
Não se pode culpar o artista. Carlinhos Brown estava em um festival de música e foi desrespeitado. O fato de estar na mesma noite de o Guns n' Roses não é justificativa. No Woodstock de 1969, artistas de blues e country dividiram espaços com roqueiros mais pesados e ninguém foi vaiado. Tudo isso também tem de fazer os organizadores refletirem. Um festival de música que pede por um mundo melhor precisa melhorar em muitas coisas.

Fonte: Jornal da Tarde - Júlio Maria, enviado especial ao Rio de Janeiro
 
Noss, o cara pedindo paz, e os cara querendo mata ele !

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