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Baianas querem exclusividades em venda de acaraje !

No tabuleiro da baiana tem polêmica. As baianas que vendem acarajé na rua querem acabar com o bolinho em lojas e supermercados. Elas defendem a venda só do modo tradicional: no tabuleiro delas, de madeira e comprado com uma legítima baiana.

Era uma exclusividade do tabuleiro da baiana e quem quisesse provar essa delícia precisava procurar as praças e as esquinas de Salvador. Mas, de uns tempos para cá, o bolinho mais famoso da Bahia passou a ser encontrado também nos supermercados e em redes de delicatessen.

“Eu nunca na minha vida imaginei que com feijão se pudesse criar uma massa que ficasse tão rica e gostosa de comer", admirou o chefe de cozinha Albert Vernedas. O acarajé com sotaque espanhol de uma loja começou a ser vendido como experiência. "Essa experiência foi crescendo e hoje é um dos principais produtos de venda em nossas lojas", disse o chefe.

Só não perguntem às baianas se estão gostando dessa história. Elas se queixam da concorrência. “Essas grandes empresas têm em suas prateleiras mais de dez mil itens de mercadorias para se vender. O acarajé é uma areinha nesse oceano deles. Para baiana, ele é o oceano inteiro”, contou a presidente da Associação das Baianas de Acarajé, Rita Santos.

A baiana de acarajé Norma Santos Silva diz que não aprendeu a fazer outra coisa para ganhar dinheiro. Foi com o acarajé que ela conseguiu sustentar seus 12 filhos. "Se não fosse o acarajé não sei o que seria de mim para criar tanto filho", afirmou a baiana.

As baianas de acarajé Cristina Silva e Sandra chegaram a tentar outras profissões, mas desistiram. “Eu larguei tudo para me dedicar ao acarajé, porque é uma coisa que eu faço com amor. Chego a me emocionar quando eu falo, porque é com amor mesmo”, disse Cristina Silva.

Com amor e devoção, a mistura de massa de feijão com dendê chegou ao Brasil pelas mãos dos escravos. Antes de ganhar as ruas, já era prato obrigatório nas oferendas para os orixás. O autêntico acarajé da Bahia tem o cheiro da fé e o sabor da comida dos deuses africanos. Pela tradição, só o povo dos terreiros, o povo do candomblé, conhece bem essa receita. Há segredos até na hora de vender.

Antes de o primeiro freguês aparecer elas cumprem um ritual sagrado. “Se não pedirmos para abrir os caminhos, tudo da gente fica encalhado", explica uma baiana.

Na hora de servir, é bom ficar atento: ela vai perguntar se você prefere que ele seja frio ou quente. "Eu sabia que quente é apimentado, mas não tão quente. Está pegando fogo", contou um turista.

Mas quem experimenta não se arrepende. "Todas as vezes que venho à Bahia, eu agradeço a Deus por me dar a oportunidade de comer esse acarajé maravilhoso. É um ‘trem bão demais’", diz o turista mineiro José Roberto.

As baianas pretendem recorrer à Justiça contra a venda do acarajé nos supermercados. Querem preservar a invenção dos seus antepassados como exclusividade do tabuleiro. Não há como duvidar: sem elas o bolinho, reconhecido como patrimônio imaterial do Brasil, não teria o autêntico sabor da Bahia.

"O acarajé sem o axé, sem o amor, sem o dendê, não é acarajé. É outro bolinho qualquer, mas acarajé não é”, disse a baiana Norma Santos Silva.